Monday, October 24, 2005

Tânger

Já lhe chamei a cidade da decadência elegante. Hoje a luz sobe pela Kashba por estas casas brancas, como se fosse o ar que ela aquece. A luz separa esta baía e as pessoas que a habitam. Não se estende da mesma forma. Também a luz reconhece a verdadeira diferença dos olhos. Estes reflectem ou a proximidade ingénua ou a distância cruel.
Susceptibilidades.
E o mar recupera tons de prata com o vento.
Os guindastes. Os ferrys.
Sem dúvida, a luz em Tânger é um fantasma branco. Separa mas dilui no mesmo espaço, com a consciência de centenas de anos. Tânger não é mais do que cafés e hotéis arte-nova, ruas sujas cheias de marroquinos suspeitos.
A evidência do crime protege-me, hoje não sou outro, para Tânger sou um traficante espanhol. Por isto ela odeia-me, porque pensa precisar de mim.
A dor da prisão. Eu tenho passaporte, Tânger nunca o terá. Os anos do protectorado deram-lhe um estatuto efémero de cidade internacional, estatuto internacional de cidade efémera.


Hoje a luz sobe pelas ruas por estas casas decadentes, como se fosse os olhos que ela aquece. A luz separa este mar e o vento que o habita. Não se estende da mesma forma. Também a luz reconhece a verdadeira distância entre os guindastes e os ferrys. Estes reflectem ou a proximidade ingénua ou os tons de prata, cruéis.
Susceptibilidades.
Sem dúvida, a luz em Tânger é um fantasma evidente. Separa-me mas protege-me no mesmo espaço, com a consciência do crime. Tânger não é mais do que traficantes espanhóis e passaportes suspeitos. Hoje não sou outro, para Tânger sou um marroquino branco. Por isto ela tem-me para sempre, preso na dor internacional, em algum café ou hotel arte-nova, um ódio nada efémero.


Águas internacionais, Setembro de 2005

0 Comments:

Post a Comment

<< Home