"Marcas de sangue" (pormenor)
Não gosto deste título. Não gostei quando o li pela primeira vez, ainda antes de ver a peça (*), e não gosto agora, mesmo contextualizado. Sem ter investigado qual o título original escolherei, na posição de espectador obsessivo, ou seja, riscarei no meu bilhete o título após tradução e escreverei por cima, Luz baixa. Aliás, e já que o Branco não nos está aqui a ouvir, aventuro-me a dizer que tecnicamente o tratamento da luz, em toda a peça, esteve exemplar. Não me esqueço da cena da praia, fim de tarde sobre a areia com aqueles dourados e aquelas sombras tão típicas, uma figura humana que se torna disforme nas marcas de pegadas e encolhida sobre si mesma como se quisesse renascer, um braço que se agiganta violento num contraluz súbito. Não me esqueço também da cena do telefonema entre pai e filho, a sombra do pai projectada na parede como uma marioneta suspensa no tempo, o pai tornara-se vazio, todo o seu conteúdo estava no jogo de sombras, na manipulação cruel e aguda do álcool.
A luz baixa tem essencialmente duas características, ambas coabitantes com um charme, suave, mas também algo frenético. A primeira é a criação de contrastes, como se iluminasse o que há para iluminar e escondesse o que há para esconder. A segunda é a capacidade de encandear, queimando imagens e tornando impossível ver o que não quer ser visto. Estas duas características estão retratadas na peça. Nas personagens e nos seus segredos. Sobre a areia, ora iluminados por uma luz amarela, velha e um pouco triste, mas visíveis, ora na sombra do medo e da dor. Subjugados por uma força que não compreendem, deixam-se estar ali, de frente para uma luz que também não compreendem, simplesmente à espera da cegueira.
(*) a peça de que falo é Marcas de Sangue, vi-a na sala das novas tendências do Teatro da Comuna, com os actores Albano Jerónimo, Leonor Seixas, José Wallenstein , São José Correia e Lucinda Loureiro, e encenada por Isabel Medina.
Aveiro, Outubro de 2005
A luz baixa tem essencialmente duas características, ambas coabitantes com um charme, suave, mas também algo frenético. A primeira é a criação de contrastes, como se iluminasse o que há para iluminar e escondesse o que há para esconder. A segunda é a capacidade de encandear, queimando imagens e tornando impossível ver o que não quer ser visto. Estas duas características estão retratadas na peça. Nas personagens e nos seus segredos. Sobre a areia, ora iluminados por uma luz amarela, velha e um pouco triste, mas visíveis, ora na sombra do medo e da dor. Subjugados por uma força que não compreendem, deixam-se estar ali, de frente para uma luz que também não compreendem, simplesmente à espera da cegueira.
(*) a peça de que falo é Marcas de Sangue, vi-a na sala das novas tendências do Teatro da Comuna, com os actores Albano Jerónimo, Leonor Seixas, José Wallenstein , São José Correia e Lucinda Loureiro, e encenada por Isabel Medina.
Aveiro, Outubro de 2005
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