Wednesday, October 26, 2005

"Marcas de sangue" (pormenor)

Não gosto deste título. Não gostei quando o li pela primeira vez, ainda antes de ver a peça (*), e não gosto agora, mesmo contextualizado. Sem ter investigado qual o título original escolherei, na posição de espectador obsessivo, ou seja, riscarei no meu bilhete o título após tradução e escreverei por cima, Luz baixa. Aliás, e já que o Branco não nos está aqui a ouvir, aventuro-me a dizer que tecnicamente o tratamento da luz, em toda a peça, esteve exemplar. Não me esqueço da cena da praia, fim de tarde sobre a areia com aqueles dourados e aquelas sombras tão típicas, uma figura humana que se torna disforme nas marcas de pegadas e encolhida sobre si mesma como se quisesse renascer, um braço que se agiganta violento num contraluz súbito. Não me esqueço também da cena do telefonema entre pai e filho, a sombra do pai projectada na parede como uma marioneta suspensa no tempo, o pai tornara-se vazio, todo o seu conteúdo estava no jogo de sombras, na manipulação cruel e aguda do álcool.


A luz baixa tem essencialmente duas características, ambas coabitantes com um charme, suave, mas também algo frenético. A primeira é a criação de contrastes, como se iluminasse o que há para iluminar e escondesse o que há para esconder. A segunda é a capacidade de encandear, queimando imagens e tornando impossível ver o que não quer ser visto. Estas duas características estão retratadas na peça. Nas personagens e nos seus segredos. Sobre a areia, ora iluminados por uma luz amarela, velha e um pouco triste, mas visíveis, ora na sombra do medo e da dor. Subjugados por uma força que não compreendem, deixam-se estar ali, de frente para uma luz que também não compreendem, simplesmente à espera da cegueira.



(*) a peça de que falo é Marcas de Sangue, vi-a na sala das novas tendências do Teatro da Comuna, com os actores Albano Jerónimo, Leonor Seixas, José Wallenstein , São José Correia e Lucinda Loureiro, e encenada por Isabel Medina.


Aveiro, Outubro de 2005

Monday, October 24, 2005

sobre "Tânger"

Decidi publicar o "Tânger", recuperando assim um texto antigo e, consequentemente, cortando a linha temporal a um blogue cuja estrutura será, assim me proponho, a de um diário, semanário, ou, em último caso, mensário, dizia, decidi por ter lido um artigo no Público de hoje (24.10.2005) intitulado "Portugal não pode ficar indiferente a Ceuta e Melilla". O artigo é sofrível, não satisfaz, ou melhor, não me satisfez enquanto opinião, mas pelo menos informou-me do que se passa a quatro horas de viagem de carro desde a bonita cidade de Tavira, ainda portuguesa, e principalmente, fez-me recordar a minha passagem pelo Sul da Europa/Norte de África, mais em concreto a minha passagem pela cidade que já não é 'praça europeia'. Quero dizer então, eu sou português e não fiquei indiferente. Mas também não sou indiferente ao facto de que a minha não indiferença em relação a este ou a qualquer outro assunto diferente da linha interessante da evolução do sujeito europeu será sempre objecto de indiferença.

Tânger

Já lhe chamei a cidade da decadência elegante. Hoje a luz sobe pela Kashba por estas casas brancas, como se fosse o ar que ela aquece. A luz separa esta baía e as pessoas que a habitam. Não se estende da mesma forma. Também a luz reconhece a verdadeira diferença dos olhos. Estes reflectem ou a proximidade ingénua ou a distância cruel.
Susceptibilidades.
E o mar recupera tons de prata com o vento.
Os guindastes. Os ferrys.
Sem dúvida, a luz em Tânger é um fantasma branco. Separa mas dilui no mesmo espaço, com a consciência de centenas de anos. Tânger não é mais do que cafés e hotéis arte-nova, ruas sujas cheias de marroquinos suspeitos.
A evidência do crime protege-me, hoje não sou outro, para Tânger sou um traficante espanhol. Por isto ela odeia-me, porque pensa precisar de mim.
A dor da prisão. Eu tenho passaporte, Tânger nunca o terá. Os anos do protectorado deram-lhe um estatuto efémero de cidade internacional, estatuto internacional de cidade efémera.


Hoje a luz sobe pelas ruas por estas casas decadentes, como se fosse os olhos que ela aquece. A luz separa este mar e o vento que o habita. Não se estende da mesma forma. Também a luz reconhece a verdadeira distância entre os guindastes e os ferrys. Estes reflectem ou a proximidade ingénua ou os tons de prata, cruéis.
Susceptibilidades.
Sem dúvida, a luz em Tânger é um fantasma evidente. Separa-me mas protege-me no mesmo espaço, com a consciência do crime. Tânger não é mais do que traficantes espanhóis e passaportes suspeitos. Hoje não sou outro, para Tânger sou um marroquino branco. Por isto ela tem-me para sempre, preso na dor internacional, em algum café ou hotel arte-nova, um ódio nada efémero.


Águas internacionais, Setembro de 2005

Thursday, October 13, 2005

Arcade Fire, it’s like a cancer

Um mês depois do concerto dos U2, o qual o João Pedro associava, em forma de promessa, a um fim de ciclo, encontrei este CD, esta "pérola", será certamente assim que o Telmo o definirá. E não foi por me apaixonar logo pelas músicas, tal como me tinha acontecido com os Tindersticks, ainda adolescente, ou com os Sigur Rós, que percebi a importância deste objecto e da sua projecção em mim. Não. Foi por acreditar instantaneamente que, e acredito ainda agora, onde eu não sentia a música do meu primo e onde ele desvalorizava a minha, exactamente aí nesse lugar, nessa terra de ninguém, se encontra este Funeral. Mas este povoamento vai mais longe. Chega ao Alentejo e chega a Junho, chega àqueles fins-de-tarde onde nem sempre se ouvia música. Agora, onde a memória é silenciosa, entra este fogo invasor como banda sonora para aqueles momentos em que só olhávamos, ou só nos olhávamos, porque se na altura esses eram os melhores momentos, hoje já não fazem qualquer sentido, são um tempo de ninguém.


Hoje ouço Arcade Fire e tento dar um sentido cíclico à vida, tento encontrar um ou mais padrões, só para ser mais fácil, para melhor compreender o que já é simples e, talvez por isso mesmo, difícil de sentir. O João Pedro disse: "O que os concertos têm de melhor é que não se pode baixar o volume"; eu digo: O que a vida tem de melhor é que pode-se sempre complicá-la. Nós não queremos ser simples como as estradas na costa alentejana, nós queremos ser simples como as estradas na costa alentejana mas com uma grande banda sonora. Nós queremos que a nossa vida seja um filme, ou um ciclo de cinema.


Hoje ouço Arcade Fire e desejo tê-los ouvido no passado mês de Junho, ou desejo estar agora na Galé a ouvi-los tal como sou neste preciso momento. Não sei. Nunca foi o meu forte, sempre confundi Tempo e Espaço. Sei que não chamo a este desejo ou ao povoamento de que falei um processo de reviver, não, nem mesmo quando re-inspiro aqueles momentos em que entrevíamos o mar nas estradas simples, nem mesmo quando revejo as mãos que falavam e agora são silêncio.


Hoje ouço Arcade Fire e ouço-os repetidamente.




Aveiro, Outubro de 2005